Uma mulher encontra uma pequena imagem
A história fundadora que o próprio Mosteiro de Panormitis transmite começa de maneira doméstica.
A tradição popular registrada pelo próprio mosteiro nomeia uma mulher piedosa de Symi como Mariô tou Proteniou. Enquanto trabalhava em sua propriedade em Panormos, ela teria encontrado sob um lentisco uma pequena e antiga imagem de São Miguel.
Mariô a levou para casa, colocou-a entre suas imagens e manteve diante dela uma lâmpada acesa.
O ícone não permanecia onde ela o colocava
No dia seguinte, a imagem havia desaparecido.
Quando Mariô voltou à propriedade, encontrou-a novamente no mesmo ponto sob o arbusto. Levou-a para casa outra vez. A tradição diz que o acontecimento se repetiu três vezes.
A narrativa não apresenta a mulher como alguém que deseja perder a imagem. Ela quer conservá-la perto de si. O conflito nasce justamente daí: a devoção pessoal precisa aprender que aquilo que recebe não existe apenas para ser possuído.
O sonho muda a direção da devoção
Segundo a tradição, São Miguel aparece então em sonho, luminoso, e manifesta o desejo de permanecer em Panormos.
Mariô deixa de tentar levar a imagem para a própria casa. Conta o acontecimento à comunidade e, com a ajuda dos conterrâneos, ergue um pequeno oratório no lugar.
A imagem que ela queria possuir torna-se motivo para construir um espaço onde outros também poderão rezar.
Do oratório ao santuário
Essa passagem é espiritualmente decisiva. O que começa como encontro individual termina em obra comunitária.
A devoção saudável não fecha o sagrado dentro de uma experiência privada. Compartilha, serve, constrói, recebe os outros.
Mariô desaparece da narrativa depois de cumprir sua função. O lugar cresce muito além dela.
A primeira prova escrita não é a lenda
O próprio mosteiro distingue a narrativa popular do que pode ser documentado.
A primeira testemunha escrita citada pela instituição é um manuscrito de um cânon de súplica aos Arcanjos, escrito no mosteiro em 1460. Segundo a história oficial, esse manuscrito permaneceu em uso litúrgico até 1862, quando foi destruído por causa não esclarecida, talvez por incêndio.
O dado não permite datar a fundação. Permite afirmar apenas que, em meados do século XV, o mosteiro já existia e possuía vida litúrgica.
1783 não é o começo
A forma atual do katholikon se relaciona à grande reconstrução concluída em 1783. Seria errado, porém, confundir essa data com a origem do santuário.
A própria história oficial aponta evidências anteriores à reconstrução: o revestimento de prata da grande imagem foi realizado em 1724, e uma inscrição votiva mural registra 1760. Nenhuma dessas datas, porém, estabelece quando a imagem foi originalmente pintada.
Panormitis, portanto, é um lugar reconstruído sobre uma história mais antiga que a arquitetura hoje visível.
O ícone que não quis ser objeto privado
A narrativa de Mariô pode ser recebida sem transformá-la em obrigação de fé.
Seu fruto espiritual é transparente: aquilo que recebemos de Deus não existe para alimentar posse religiosa.
Ela levou o ícone para casa. A tradição diz que o Arcanjo devolveu a devoção ao lugar onde outros também poderiam chegar.

