Entrar sabendo onde se está
Um católico que chega a Panormitis entra em um mosteiro cristão ortodoxo, não em uma igreja em plena comunhão com Roma. A distinção parece óbvia e, justamente por isso, pode desaparecer diante da profunda familiaridade de ícones, incenso, Evangelho, altar, monges, festas de São Miguel, devoção à Mãe de Deus e celebração eucarística.
A familiaridade é real. A plena comunhão, porém, ainda não é.
A Igreja Católica reconhece a realidade eclesial do Oriente ortodoxo
O Concílio Vaticano II usa uma linguagem muito forte ao falar do Oriente cristão.
As Igrejas Ortodoxas não são tratadas pela Igreja Católica como comunidades cristãs desprovidas de sucessão apostólica e sacramentos. Unitatis redintegratio afirma que, embora separadas da plena comunhão com Roma, possuem verdadeiros sacramentos, sobretudo o sacerdócio e a Eucaristia, em virtude da sucessão apostólica. O Catecismo retoma a mesma doutrina.
Isso significa que um católico diante da Divina Liturgia não está assistindo a uma imitação da Eucaristia. Está diante de verdadeira vida sacramental em uma Igreja oriental que permanece fora da plena comunhão com a Igreja Católica.
A divisão continua sendo divisão
O respeito não exige fingimento.
Católicos e ortodoxos partilham a Sagrada Escritura, a fé trinitária e cristológica, a herança conciliar do primeiro milênio, a sucessão apostólica, a vida sacramental, a veneração dos santos e uma vasta tradição monástica e litúrgica. Essa proximidade não elimina as feridas históricas, as diferenças teológicas e as questões ainda abertas sobre primado, governo e plena comunhão eclesial.
O Oriente não é uma versão exótica do Ocidente
Uma visita a Panormitis pode ser arruinada por um olhar turístico que compara tudo com a paróquia de casa.
O ícone não é apenas 'quadro religioso'. A iconostase não é decoração que atrapalha a visão do altar. O canto não é simples música ambiente. Os gestos litúrgicos carregam uma tradição própria.
O Concílio Vaticano II recomendou aos católicos conhecer, venerar, preservar e estimar o patrimônio litúrgico e espiritual do Oriente. Isso exige primeiro deixar o Oriente falar com sua própria voz.
A vida monástica do Oriente é um tesouro para toda a Igreja
O mesmo decreto conciliar chama atenção especial para a espiritualidade monástica oriental.
Isso é particularmente adequado em Panormitis. O visitante não encontra apenas uma igreja dedicada a São Miguel, mas um mosteiro inserido em uma tradição que conservou formas próprias de oração, jejum, vigília, canto, ícones, hospitalidade e vida comunitária.
Um católico não precisa tornar-se ortodoxo para reconhecer que tem algo a aprender ali.
O que um católico pode fazer
Pode entrar com respeito, observar as orientações da comunidade, rezar, acender uma vela onde isso for permitido e, respeitando os usos do mosteiro, rezar diante dos ícones e venerá-los. Pode escutar a Divina Liturgia e unir-se interiormente às orações compatíveis com a própria fé.
Pode pedir a intercessão de São Miguel, agradecer a Deus pela fé dos cristãos que mantiveram aquele lugar vivo e conhecer a espiritualidade oriental sem tratá-la como peça de museu. E pode sair desejando mais profundamente a unidade dos cristãos.
O que não deve presumir
A Eucaristia exige uma cautela especial.
Na disciplina ordinária da Igreja Ortodoxa Grega, a Santa Comunhão é reservada aos fiéis ortodoxos devidamente preparados. Materiais pastorais vinculados à Arquidiocese Ortodoxa Grega da América explicitam inclusive que católicos romanos não recebem ordinariamente a Comunhão na Igreja Ortodoxa.
Portanto, um católico visitante de Panormitis não deve simplesmente aproximar-se do cálice porque a Igreja Católica reconhece a validade da Eucaristia ortodoxa.
A exceção católica não elimina a disciplina ortodoxa
O Direito Canônico católico prevê situações excepcionais em que um católico pode receber Penitência, Eucaristia ou Unção dos Enfermos de um ministro de uma Igreja oriental não católica: quando houver necessidade ou verdadeira vantagem espiritual, for física ou moralmente impossível procurar um ministro católico e estiver afastado o perigo de erro ou indiferentismo.
Essa permissão católica não cria um direito de exigir o sacramento de um sacerdote ortodoxo.
A disciplina da Igreja anfitriã deve ser integralmente respeitada. Na prática, isso significa que o peregrino católico não deve aproximar-se do cálice sem orientação e consentimento claros do sacerdote ortodoxo e sem que as condições da própria Igreja Católica estejam presentes.
Não receber pode também ser uma oração
Há uma dor ecumênica verdadeira em permanecer diante de uma Eucaristia válida e não participar normalmente do mesmo cálice.
A resposta mais madura não é fingir que essa dor não existe. É oferecê-la.
Não comungar pode tornar-se, naquele momento, oração pela unidade: 'Senhor, faze que um dia a comunhão que já existe de maneira real possa tornar-se plena e visível'.
Ícones: venerar não é adorar
Outro ponto que pode causar estranhamento ao visitante ocidental é a intensidade da veneração dos ícones.
A tradição católica também ensina que a veneração de imagens sagradas não é adoração da matéria. O gesto passa à pessoa representada; a adoração pertence somente a Deus.
Por isso, um católico pode compreender a veneração ortodoxa sem tratá-la como idolatria e sem precisar copiar gestos que não conhece. Respeito também significa não representar uma familiaridade litúrgica que ainda não possui.
São Miguel é um ponto de encontro real
Neste projeto, Panormitis ocupa um lugar especial porque São Miguel pertence à memória litúrgica e bíblica de Oriente e Ocidente.
Católicos e ortodoxos o invocam como Arcanjo e servidor de Deus. Ambos o contemplam no combate contra o mal. Ambos celebram a realidade dos anjos e conservam antigas tradições de sua intercessão.
Isso não apaga as divisões. Oferece um lugar verdadeiro de encontro.
Entrar como hóspede, sair como irmão
Talvez a melhor postura católica diante de Panormitis seja a de um hóspede que sabe que entrou na casa de irmãos separados.
Ele não entra para corrigir. Não entra para apropriar-se. Não entra para fingir que a história da separação nunca aconteceu.
Entra para rezar, agradecer, aprender e desejar aquilo que Cristo desejou para os seus: que sejam um.
A comunhão ainda não é plena. A fraternidade já é real. E a verdade não exige que sacrifiquemos uma para proteger a outra.
Em Panormitis, aprendemos a enviar uma oração sem controlar o mar, a fazer uma promessa sem negociar com o céu e a entrar na casa do outro sem fingir que ela já é nossa casa.

