A tradição do Gargano situa suas origens no fim do século V, quando o Império Romano do Ocidente acabava de ruir. O culto a São Miguel já existia no Oriente, enquanto a Puglia se tornava um ponto de contato entre mundos políticos, religiosos e culturais em transformação.
O episódio do touro e da flecha é a primeira narrativa fundadora conservada pelo Liber de apparitione. Seu valor está na memória religiosa do santuário: a tradição fala de prodígio, jejum, oração, escolha da gruta e chamado à conversão, sem transformar seus detalhes em artigo de fé.
A tradição gargânica associa o dia 8 de maio a uma vitória obtida sob a proteção de São Miguel. A história, porém, exige distinguir a cronologia devocional, a memória lombarda e aquilo que o Liber transmite como narrativa hagiográfica.
A chamada “Basílica Celeste” nasce da tradição segundo a qual a gruta já teria sido consagrada por intervenção de São Miguel. A devoção é antiga e legítima; seu relato fundacional, porém, não equivale a uma definição doutrinal nem a uma cronologia historicamente comprovada.
O Liber de apparitione é a principal fonte literária da tradição fundadora do Gargano. Escrito séculos depois das datas tradicionalmente atribuídas aos episódios, ele deve ser lido como documento religioso e histórico da memória de uma comunidade, não como depoimento ocular.
Em 1656, em meio à peste no Reino de Nápoles, a tradição do Gargano ligou a intercessão de São Miguel às pequenas pedras da gruta. O episódio reúne súplica, gratidão e memória material, sem transformar o objeto em amuleto.
Os lombardos não criaram o culto do Gargano, mas encontraram nele uma referência espiritual que ajudaram a ampliar. Reis, duques, inscrições e obras deixaram marcas concretas de um encontro que projetou o santuário muito além da Puglia.
Antes dos nomes célebres, o Gargano foi sustentado por multidões anônimas. Inscrições, relatos de viagem e visitas documentadas mostram um santuário no qual reis, papas, santos e desconhecidos terminam fazendo o mesmo gesto: descer como peregrinos.
Segundo a tradição do santuário, Francisco teria chegado ao Gargano por volta de 1216 e permanecido à entrada por reverência. O tau conservado na pedra pertence à memória devocional local e aponta, como toda a espiritualidade franciscana, para a cruz de Cristo.
O Gargano atual reúne séculos de arquitetura ao redor do mesmo núcleo: a gruta. A longa descida, a imagem tradicionalmente atribuída a Sansovino, as inscrições e o reconhecimento da UNESCO mostram um patrimônio histórico que continua vivo porque continua sendo lugar de oração.