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Joana d’Arc e São Miguel: a missão e a coragem inspiradas no Céu — Parte 1

A história começa com uma menina de treze anos, uma voz, uma luz e um conselho surpreendentemente simples: ser boa, permanecer fiel à Igreja e confiar em Deus.

De todos os santos que tiveram devoção a São Miguel Arcanjo, e foram muitos, um caso é diferente de todos os outros.

Não por ter sido a experiência mais extraordinária, e sim por existirem as atas.

Santa Joana d'Arc foi interrogada durante meses por um tribunal eclesiástico hostil, empenhado em demonstrar que as suas vozes vinham do demônio. Notários registraram tudo por escrito. Ela foi pressionada, contraditada, apanhada em armadilhas de linguagem, obrigada a repetir a mesma história dezenas de vezes por juízes que procuravam contradições.

E ela contou, sob juramento, como São Miguel apareceu a ela pela primeira vez.

Nenhum outro místico da Idade Média deixou um testemunho nessas condições. É por isso que este artigo existe.

Uma menina de treze anos

Joana nasceu em Domrémy, na Lorena, provavelmente em 6 de janeiro de 1412, filha de Jacques d'Arc e Isabelle Romée, camponeses de posses razoáveis.

A região era fronteira, e fronteira em tempo de Guerra dos Cem Anos. Domrémy foi atacada. Uma criança que crescesse ali sabia o que era medo.

No verão de 1425, quando tinha treze anos e meio, aconteceu.

Ela estava no jardim do pai, ao meio-dia. Ouviu uma voz, acompanhada de muita luz, vinda da direção da igreja. Ficou com medo. Ouviu três vezes até ter certeza de que era voz de anjo.

Ela contou isso aos juízes com uma sobriedade que impressiona quem espera arroubo místico. Nada de êxtase, nada de descrição espetacular. Uma menina, um jardim, meio-dia, uma voz e luz.

Mais tarde, ela identificou aquela presença como São Miguel Arcanjo, acompanhado de outros anjos.

A primeira mensagem

E aqui está o dado que, para mim, é o mais importante de tudo o que ela disse.

O que São Miguel falou primeiro para aquela menina?

Segundo o testemunho dela, o Arcanjo lhe disse que fosse boa, que continuasse indo à igreja, que confiasse em Deus. Contou que ele a encorajou a ser uma boa menina e lhe disse que Deus a ajudaria.

Pare um momento nisso.

Estamos falando da jovem que comandaria exércitos, levantaria o cerco de Orléans, faria coroar um rei em Reims e mudaria o curso de uma guerra de cem anos. E a primeira coisa que o príncipe da milícia celeste lhe disse foi: seja boa e vá à igreja.

Não veio com mapa de batalha. Não veio com estratégia. Veio com o que se diz a uma criança de treze anos que precisa crescer direito.

Toda a missão veio depois, e veio devagar. Primeiro a bondade comum, a fidelidade à paróquia, a confiança. Só então o resto.

Quem procura em São Miguel um atalho para grandes coisas deveria ler esse trecho das atas com atenção. O Arcanjo começou pelo básico, e o básico era doméstico.

O choro

Há uma frase de Joana sobre aquela primeira aparição que atravessa seiscentos anos sem perder nada.

Ela disse que, quando eles se foram, chorou, porque desejava que a tivessem levado junto.

Uma menina no jardim, chorando porque os anjos foram embora sem ela.

Não é frase de teólogo. É de quem viu.

As santas

Segundo o testemunho, São Miguel depois lhe anunciou que Santa Catarina e Santa Margarida viriam vê-la e que ela deveria seguir os conselhos delas, porque tinham recebido ordem de dirigi-la e aconselhá-la, e que tudo aquilo fora ordenado por Nosso Senhor.

Eram Catarina de Alexandria e Margarida de Antioquia, as duas virgens mártires mais conhecidas naquela região. Ambas tinham enfrentado poderosos, sido torturadas e morrido pela fé preservando a virtude.

Note-se o padrão pedagógico, e ele é revelador. O Arcanjo não permanece. Apresenta as santas e sai de cena. A menina, que já tinha feito voto de virgindade diante dele, passa a ser acompanhada por duas mulheres que fizeram exatamente o que ela teria de fazer: enfrentar o poder e não ceder.

Miguel, mais uma vez, aponta para outro. É o que ele faz.

Por que São Miguel, e não outro

Há um dado histórico que explica muita coisa e que raramente se menciona.

São Miguel era padroeiro da região de Domrémy. E, na França daquele século, o Arcanjo era visto como defensor do reino. O Mont-Saint-Michel, como contamos na série dos santuários, foi o único ponto da Normandia que os ingleses nunca tomaram, e resistiu justamente naqueles anos.

Uma menina francesa de treze anos, em uma aldeia de fronteira sob ataque inglês, criada em uma cultura que via em São Miguel o guardião da França, ouve uma voz e a identifica como São Miguel.

Registro isso pois um leitor cético diria que a explicação está aí, e um leitor devoto poderia ofender-se com a observação. Acho que os dois estão apressados.

Deus fala às pessoas na língua delas. Que o Arcanjo tenha aparecido a uma menina que já o conhecia, no lugar onde ele era honrado, é exatamente o que se esperaria de uma revelação dirigida a alguém real, e não a um receptor abstrato. A graça não anula a cultura; usa-a.

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