O tribunal
Joana foi capturada em 1430 e julgada em Rouen por um tribunal eclesiástico a serviço dos interesses ingleses. Foi condenada e queimada em 30 de maio de 1431. Tinha dezenove anos.
O processo foi injusto, e a própria Igreja o declarou nulo depois. Mas produziu um documento extraordinário, pois um tribunal empenhado em desmontar uma história pergunta muito mais que um confessor simpático.
Sobre as suas vozes, Joana foi sempre relutante. Não falara delas nem ao próprio confessor. Recusou-se, durante o julgamento, a descrever a aparência dos santos e a explicar como os reconhecia, mesmo sob pressão.
Mas disse aos juízes uma frase que ficou: que os viu com aqueles mesmos olhos, assim como via os juízes.
É preciso registrar o outro lado com honestidade. Um julgamento hostil não é o cenário ideal para um relato espiritual. As respostas foram tomadas em francês e registradas em latim por notários. Houve pressão, cansaço, meses de cárcere. Nada disso invalida o testemunho, mas quem o cita deve saber em que condições ele foi produzido.
E há, evidentemente, as hipóteses médicas modernas sobre a natureza das vozes, propostas ao longo dos séculos. São hipóteses, e nenhuma delas explica bem o conjunto: a coerência do relato sob interrogatório adversarial, a estabilidade da história ao longo de anos, e o desfecho militar e político que se seguiu.
A reabilitação
Entre 1455 e 1456, por ordem de Carlos VII, correu o processo de nulidade. Foram ouvidas testemunhas de todas as fases da vida dela: gente de Domrémy, companheiros de armas, participantes do julgamento anterior.
O testemunho dos aldeões é uniforme e comovente. Descrevem uma menina piedosa, simples, que ia de bom grado à igreja, consolava os doentes e dava esmola aos pobres.
Um camponês chamado Simonin Musnier contou que cresceu perto dela, morava perto da casa do pai dela, e que quando era pequeno adoeceu e Joana veio consolá-lo.
Guarde essa imagem ao lado da outra. A mesma pessoa que os aldeões lembram indo visitar um menino doente é a que levantou o cerco de Orléans. A santidade dela não começou no campo de batalha. Começou nas obrigações pequenas do dia a dia, que é onde ela sempre começa.
Joana foi canonizada em 1920, pelo Papa Bento XV, quase cinco séculos depois de ser queimada como herege.
O que o caso dela ensina sobre discernimento
Convém extrair daqui uma lição prática, pois muitas pessoas hoje perguntam como saber se uma inspiração vem de Deus.
Repare no que Joana fez, e no que ela não fez.
Ela teve medo primeiro. Não saiu correndo dizendo que tinha visto um anjo. Ficou assustada, ouviu três vezes antes de ter certeza, e ficou anos sem contar a ninguém, nem ao confessor.
Ela não obteve benefício algum com aquilo. As vozes não lhe prometeram conforto, prestígio ou segurança. Levaram-na a uma missão que terminou numa fogueira, e ela sabia que terminaria mal.
O conteúdo da primeira mensagem era ordinário e verificável: seja boa, vá à igreja, confie em Deus. Nada que contrariasse a fé, nada de secreto, nada que a colocasse acima dos outros.
E ela se submeteu ao juízo da Igreja mesmo quando a Igreja, naquele tribunal, estava errada.
Compare isso com o padrão das mensagens que circulam hoje prometendo revelações. Costumam vir sem medo nenhum, com pressa de serem divulgadas, com conteúdo lisonjeiro para quem as recebe, e quase sempre com alguma desconfiança em relação à autoridade da Igreja.
Não é preciso ser teólogo para notar a diferença.
Como a Igreja a lê hoje
O Papa Bento XVI dedicou-lhe uma catequese e destacou aspectos que não são os que a memória popular guarda.
Falou dela como alguém muito próximo dos pobres e dos doentes. E observou que, aos dezessete anos, ela tinha desenvolvido uma personalidade forte e determinada, capaz de convencer homens inseguros e desmoralizados.
Repare no que essa leitura sublinha. Não a espada, não a armadura, não o cavalo. A proximidade dos doentes e a capacidade de reerguer homens desanimados.
É uma leitura que combina com o que São Miguel lhe disse no jardim. A missão inteira estava contida no primeiro conselho.
O Arcanjo e a França
Convém abrir um parêntese sobre o contexto, pois ele explica por que a figura de Joana e a de São Miguel ficaram grudadas na memória francesa.
Naqueles mesmos anos em que a menina ouvia vozes em Domrémy, o Mont-Saint-Michel resistia no outro extremo do reino. Sitiado, bloqueado por terra e por mar, foi o único ponto da Normandia que os ingleses jamais tomaram. Em 17 de junho de 1434, um assalto inglês chegou a abrir brecha e entrar na cidadela, e foi repelido. Os atacantes fugiram deixando duas bombardas para trás, que os moradores batizaram de michelettes e que continuam expostas na entrada da fortaleza até hoje.
Um rochedo dedicado a São Miguel que não cai, e uma camponesa que diz ter sido enviada por São Miguel para levantar um cerco. Não é difícil entender por que os dois se fundiram no imaginário de um povo em guerra.
Corre a história de que a notícia da resistência do monte teria chegado a Domrémy e animado a menina. Como já disse na série dos santuários, isso aparece em textos devocionais e não encontrei fonte histórica firme para o episódio. Trate como tradição, não como fato. O que é fato é que existe hoje, diante da igreja paroquial de São Pedro no Mont-Saint-Michel, uma estátua de Joana d'Arc. O povo fez a ligação por conta própria, e a manteve.
O que ela não fez
Um último ponto, e é o que mais me impressiona nela.
Joana nunca usou as visões como autoridade contra a Igreja.
Ela poderia ter feito isso. Tinha um argumento pronto e imbatível: São Miguel me disse. Diante de juízes corruptos, seria fácil e até compreensível.
Não foi o caminho dela. Ela sustentou o que tinha visto e ao mesmo tempo se submeteu ao julgamento da Igreja, pedindo inclusive ser levada ao Papa. O tribunal negou.
Isso é discernimento, e é raro. Quem recebe uma graça extraordinária costuma achar que ela o coloca acima da estrutura comum. Os santos verdadeiros fazem o contrário: quanto mais recebem, mais se submetem.
E é, mais uma vez, a lição do próprio Arcanjo. Miguel, diante do demônio, não julgou por autoridade própria. Disse que o Senhor te repreenda. Joana, diante de juízes que a condenariam, não se colocou acima do juízo da Igreja.
A devota aprendeu com o padroeiro.
O que fica
De todas as histórias de devoção a São Miguel, esta possui a melhor documentação e a lição mais simples.
Uma menina de treze anos, em um jardim, ao meio-dia. Uma luz, uma voz, um susto. E uma primeira mensagem que não tinha nada de épico: seja boa, vá à igreja, confie.
Tudo o mais veio disso.
Se você está rezando a São Miguel esperando uma missão, talvez valha começar por onde ele começou com ela. Bondade comum. Fidelidade à paróquia. Confiança.
O resto, se tiver que vir, vem.
Quem como Deus? Ninguém. E foi uma menina de treze anos, chorando porque os anjos foram embora sem ela, quem melhor entendeu isso.

