De todos os santos devotos do Arcanjo, Francisco de Assis é aquele cuja devoção deixou consequências mais visíveis.
A tradição do Gargano o liga a uma peregrinação em 1216; as fontes franciscanas registram períodos de penitência em honra do Arcanjo; e, em 1224, durante um desses retiros, Francisco recebeu no corpo as chagas da Paixão.
Convém percorrer o conjunto, distinguindo o que possui atestação sólida do que pertence à tradição franciscana.
O ano de 1216
A primeira ligação preservada pela tradição micaélica é uma peregrinação.
A tradição do santuário registra que, em 1216, Francisco subiu ao Monte Gargano, na Puglia, onde fica a gruta que constitui o santuário mais antigo do Ocidente dedicado ao Arcanjo.
E conta que ele não entrou.
Julgou-se indigno de pisar em lugar consagrado, segundo a tradição, pelo próprio Arcanjo. Permaneceu à entrada, beijou a rocha e nela gravou um sinal.
A tradição do lugar identifica esse sinal como o tau, a letra que Francisco adotara como assinatura, e mostra a marca aos visitantes por uma pequena janela de vidro, no lado direito da entrada.
Registre-se o estatuto: trata-se de tradição do santuário, e não de fato estabelecido por documento contemporâneo.
O contexto daquele ano
Convém situar 1216, pois ele foi decisivo na vida dele.
O IV Concílio de Latrão terminara em novembro de 1215. Foi o maior concílio da Idade Média, e nele o Papa Inocêncio III falara expressamente do sinal do tau ao convocar a reforma da Igreja.
Francisco esteve profundamente marcado por aquele concílio, e adotou o sinal com entusiasmo.
E 1216 é também o ano ligado à tradição do Perdão de Assis, a indulgência que ele teria obtido para a pequena igreja da Porciúncula, e que se celebra até hoje em 2 de agosto.
Ou seja: trata-se do período em que a preocupação dele com o perdão dos pecados está no auge.
E a peregrinação se encaixa nisso. O Gargano é, desde a origem, lugar de perdão: a promessa que a tradição atribui à primeira aparição é que ali os pecados dos homens seriam perdoados.
Um homem obcecado com a salvação dos outros foi até a gruta onde se perdoa.
O que é o tau
Convém explicar o sinal, pois ele carrega mais do que se imagina.
O tau corresponde à última letra do alfabeto hebraico na forma tradicional de seu nome; no desenvolvimento gráfico das escritas antigas, certas formas assumiram aparência semelhante a uma cruz.
Aparece no profeta Ezequiel, no capítulo 9, em cena impressionante: diante da iminente destruição de Jerusalém, Deus manda marcar com esse sinal a fronte dos que gemem e choram por causa das abominações cometidas na cidade. Os marcados são poupados.
A tradição cristã relacionou esse sinal ao tau e lhe atribuiu sentido penitencial e cristológico.
Francisco o tomou como assinatura própria, e a ordem franciscana o conserva até hoje, em hábitos, cordões e crucifixos.
Note-se a coerência com o gesto do Gargano. Um homem que não se achou digno de entrar gravou na pedra a letra dos que choram pelo mal e são poupados.
A quaresma em honra de São Miguel
O segundo elemento da devoção micaélica de Francisco é um período prolongado de retiro, oração e penitência associado ao Arcanjo.
As fontes franciscanas registram que Francisco praticava, além da Quaresma da Igreja, outros períodos próprios de jejum e oração ao longo do ano.
Um desses períodos era dedicado a São Miguel e se estendia da Assunção, em 15 de agosto, até a festa do Arcanjo, em 29 de setembro.
A frase que a tradição franciscana guarda, dita ao chegar ao eremitério do Monte Alverne, é esta: para honra de Deus, da bem-aventurada Virgem Maria e de São Miguel, príncipe dos anjos e das almas, quero fazer aqui uma quaresma.
Note-se o título que ele atribui ao Arcanjo: príncipe dos anjos e das almas.
Não é o guerreiro que ele destaca. É aquele que, na tradição cristã, serve a Deus também no cuidado das almas.
Por que Miguel
Há razão concreta para essa preferência, e ela combina com tudo o que se sabe daquele homem.
Uma das funções que a Tradição atribui a São Miguel consiste em socorrer os fiéis na hora da morte e apresentá-los diante de Deus.
Francisco desejava ardentemente a salvação de todos, e São Boaventura, na Legenda Maior, menciona o vínculo de amor que o unia aos anjos.
Ou seja: quem teme que alguém se perca naturalmente se afeiçoa àquele que está presente no último instante.
Não se trata de devoção de combatente. É devoção de quem tem medo de que alguém fique para trás.
E ele determinou, segundo as fontes, que a ordem tivesse capítulo duas vezes por ano: em Pentecostes e na festa de São Miguel.
O Arcanjo marcava o calendário dos frades.
O Alverne, em 1224
E aqui está o desdobramento que ninguém previa.
Em 1224, oito anos após a data tradicionalmente associada à peregrinação ao Gargano, Francisco subiu ao Monte Alverne, na Toscana, acompanhado de frades, entre eles Frei Leão.
Ali viveu um período de retiro e jejum que as fontes franciscanas associam à sua devoção a São Miguel.
Em setembro daquele ano, durante esse retiro, teve a visão de um serafim alado e crucificado.
Quando a visão passou, o corpo dele trazia as chagas da Paixão.
Os estigmas de São Francisco são situados pelas fontes nesse período de retiro no Alverne associado à sua devoção a São Miguel.
As tradições variam ao situar o acontecimento entre 14 e 17 de setembro. O essencial historicamente não depende de escolher uma data por seu peso simbólico: o episódio é situado em setembro de 1224, durante o retiro no Alverne.

