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São Francisco de Assis e São Miguel: a devoção que produziu os estigmas — Parte 2

A segunda parte distingue tradição e documentação, aplica os critérios de discernimento e mostra por que Alverne, estigmas e devoção micaélica só encontram seu centro correto em Cristo.

O que realmente podemos afirmar

Convém distinguir os graus de documentação, pois eles não são iguais.

Os relatos sobre a peregrinação ao Gargano e seus pormenores pertencem à tradição franciscana e gargânica, transmitida por fontes hagiográficas posteriores. A devoção de Francisco aos anjos, seus períodos de oração ligados a São Miguel e o retiro no Alverne possuem fundamento franciscano independente da marca conservada no Gargano.

Os estigmas, esses, possuem atestação contemporânea forte.

Frei Elias, ministro da ordem, comunicou o fato por carta logo após a morte de Francisco. Há testemunhos de quem viu o corpo. E a difusão do relato foi imediata e ampla.

Ou seja: dentro da própria biografia dele, os graus de certeza variam, e convém indicá-los.

A relação entre os dois episódios

Há ainda uma observação importante, que não constitui afirmação de causa, e sim aproximação espiritual.

Segundo a tradição do Gargano, Francisco teria deixado na pedra da entrada um tau, sinal profundamente coerente com sua espiritualidade da cruz.

Em 1224, no Alverne, durante um retiro associado por fontes franciscanas à sua devoção a São Miguel, recebeu no corpo as marcas da Paixão.

Primeiro, na tradição gargânica, o sinal na rocha. Depois, na biografia mais firmemente atestada, o sinal na carne.

As fontes não estabelecem uma linha causal entre uma coisa e outra, e não convém construí-la.

A proximidade espiritual, porém, permanece: o tau remete à cruz, os estigmas remetem à Paixão, e a devoção a São Miguel remete ao serviço de Deus. Em Francisco, caminhos diferentes terminam no mesmo centro: Cristo.

O que esse caso ensina sobre discernimento

Aplique-se agora ao caso os critérios que ordenam esta seção.

Conformidade doutrinal. A visão do Alverne não acrescentou artigo de fé, não corrigiu a Igreja, não anunciou data. Produziu conformidade com a Paixão de Cristo, que é o centro da fé cristã.

Conduta de quem recebeu. Francisco não divulgou. As fontes registram que ele procurou esconder as chagas, cobrindo as mãos com as mangas e evitando que fossem vistas.

Proveito próprio. Nenhum. Os estigmas lhe trouxeram dor física pelos dois anos restantes de vida, e ele morreu praticamente cego e debilitado.

Frutos. Uma ordem religiosa que atravessou oito séculos, e uma tradição espiritual que produziu doutores da Igreja.

Ou seja: o caso passa em todos os critérios, e passa justamente porque o protagonista não se comportou como protagonista.

A quaresma que sobreviveu

Convém registrar o legado mais concreto daquela devoção.

A prática hoje conhecida como Quaresma de São Miguel recebe da devoção franciscana uma de suas referências espirituais mais fortes e, nas últimas décadas, espalhou-se muito além do círculo da ordem.

No Brasil, ganhou fôlego considerável, com comunidades inteiras rezando e fazendo penitência durante o período entre agosto e setembro.

Registre-se que não constitui tempo litúrgico, não obriga ninguém e não substitui a Quaresma que prepara a Páscoa.

E convém a observação que fecha o assunto.

Milhares de brasileiros rezam hoje, todo mês de agosto, uma prática inspirada na tradição penitencial de um homem que, segundo a memória do Gargano, se recusou a entrar em uma gruta na Puglia.

O Alverne hoje

Convém situar o lugar, pois ele permanece e recebe peregrinos.

O Monte Alverne fica na Toscana, e o eremitério ali estabelecido pertence aos franciscanos desde o século XIII.

Mostra-se ao visitante a capela erguida sobre o local tradicionalmente associado à visão do serafim, além das grutas em que Francisco se recolhia e do leito de pedra em que dormia.

Trata-se de conjunto sóbrio, em montanha coberta de floresta, e a experiência de quem sobe difere consideravelmente da dos grandes santuários urbanos.

E convém uma observação sobre a relação entre aquele monte e os desta série.

O Alverne não é santuário micaélico. Não é dedicado ao Arcanjo, e não figura em lista alguma de lugares consagrados a ele.

E, no entanto, o episódio mais impressionante da santidade franciscana ocorreu ali durante um período de retiro associado à sua devoção a São Miguel.

A devoção micaélica aparece, assim, ligada a frutos em um lugar que não leva o nome do Arcanjo.

Trata-se de coerência com aquilo que o nome dele significa. Miguel aponta para outro, e o que ele produz não fica com ele.

As Fontes Franciscanas

Convém indicar a procedência do que se contou, pois quem quiser aprofundar precisará delas.

Chama-se Fontes Franciscanas o conjunto de textos antigos sobre a vida de Francisco, e ele reúne obras de naturezas diversas.

Há os escritos do próprio Francisco, que são poucos e preciosos, entre eles a Regra, o Testamento e o Cântico das Criaturas.

Há as biografias de Tomás de Celano, escritas poucos anos após a morte dele.

Há a Legenda Maior, de São Boaventura, redigida décadas depois e adotada oficialmente pela ordem.

Há a Legenda de Perugia e outros textos ligados aos companheiros.

E há as Florinhas de São Francisco, compilação bem posterior, de caráter narrativo e popular, que fixou na imaginação ocidental muitos dos episódios mais conhecidos.

Note-se a diferença de estatuto entre eles.

Um escrito do próprio Francisco possui autoridade distinta de uma narrativa recolhida um século depois.

Quem cita um episódio franciscano faz bem em saber de qual dessas fontes ele procede, e em indicá-lo.

O que fica

Um homem que se achou indigno de atravessar uma porta.

Que reservou longos períodos de jejum e oração em honra do anjo que, na tradição cristã, cuida das almas.

Que subiu uma montanha para rezar e desceu com as chagas de Cristo no corpo.

E que passou os dois anos seguintes tentando escondê-las.

E convém reter o que aquele conjunto ensina sobre a devoção micaélica.

Francisco não subiu ao Alverne para se blindar. Subiu para se entregar.

Cultivou a devoção ao Arcanjo e, durante um desses períodos de retiro, recebeu as chagas de Cristo — sem que seja necessário transformar proximidade espiritual em relação causal.

Quem se coloca sob a proteção dele não pede para não ser atingido. Pede para não desertar.

Quem como Deus? Ninguém. E quem entendeu isso de verdade fica na porta.

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