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Os nove coros angélicos segundo Pseudo-Dionísio, São Gregório Magno e Santo Tomás

A classificação tradicional dos nove coros reúne nomes bíblicos e uma grande elaboração teológica, sem transformar a sistematização posterior em artigo de fé.


Serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos e anjos: esses nove nomes formam a classificação angélica mais conhecida no cristianismo ocidental. Sua presença na espiritualidade católica é antiga, mas seu estatuto precisa ser definido com precisão.

A existência dos anjos é verdade de fé. A divisão de todos eles exatamente em nove coros, organizados segundo determinada hierarquia, é uma sistematização teológica tradicional e venerável, não um artigo de fé definido.

Os nomes bíblicos

Os elementos da classificação possuem fundamento escriturístico. Isaías contempla serafins diante do trono de Deus. Querubins aparecem no Livro do Gênesis, no Livro do Êxodo e nas visões de Ezequiel.

São Paulo menciona tronos, dominações, principados e potestades em Colossenses 1,16. Outros textos paulinos empregam termos como principados, potestades e virtudes. A Carta de Judas chama Miguel de arcanjo, e a palavra "anjo" aparece em grande parte da Sagrada Escritura.

O que a Bíblia não oferece é uma tabela completa que reúna esses nove termos, determine que todos sejam necessariamente ordens distintas e estabeleça entre eles uma hierarquia única.

Pseudo-Dionísio

A sistematização clássica está associada ao autor conhecido como Pseudo-Dionísio Areopagita, cuja obra A Hierarquia Celeste foi provavelmente composta entre o final do século V e o início do VI.

Durante séculos, acreditou-se que esse autor fosse o Dionísio convertido após a pregação de São Paulo no Areópago, mencionado em Atos 17. A pesquisa histórica demonstrou que os escritos pertencem a época posterior. Daí a designação "Pseudo-Dionísio".

A correção da autoria não elimina a influência da obra. Sua concepção das hierarquias celestes marcou profundamente a teologia medieval e foi recebida e discutida por grandes doutores.

Três hierarquias

Pseudo-Dionísio organiza os nove coros em três grupos.

Na primeira hierarquia estão serafins, querubins e tronos. Na segunda, dominações, virtudes e potestades. Na terceira, principados, arcanjos e anjos.

A lógica não consiste simplesmente em imaginar nove degraus espaciais no céu. A hierarquia expressa diferentes modos de participação na iluminação divina e de exercício das missões dentro da ordem criada.

Santo Tomás de Aquino assume amplamente a estrutura dionisiana na Suma Teológica. Ele explica que a distinção das hierarquias e ordens se relaciona aos diferentes modos pelos quais as criaturas espirituais recebem e comunicam os desígnios de Deus.

São Gregório e as diferenças internas

São Gregório Magno também apresenta nove ordens angélicas, mas sua ordenação não coincide em todos os detalhes com a de Pseudo-Dionísio. Santo Tomás registra expressamente essa diferença.

Isso é particularmente instrutivo. Se grandes doutores podem divergir sobre a colocação relativa de determinadas ordens, a própria tradição teológica mostra que não estamos diante de uma definição dogmática de cada posição.

A unidade encontra-se na convicção de que existe ordem entre os espíritos celestes e de que os nomes bíblicos possuem significado. A disposição exata pertence à elaboração teológica.

O que os nomes significam

Os nomes exprimem propriedades ou funções. "Serafim" está tradicionalmente relacionado ao ardor; "querubim", à plenitude do conhecimento; "trono", à disponibilidade para o governo divino. Dominações, potestades e principados exprimem diferentes aspectos de ordem e governo.

"Anjo", como ensinava Santo Agostinho, é nome de ofício. "Arcanjo" indica, literalmente, um anjo principal. São Gregório relaciona os anjos às mensagens ordinárias e os arcanjos às de maior importância.

Essas explicações pertencem à tradição teológica. Não devem ser convertidas em uma espécie de catálogo científico do mundo invisível.

Onde está São Miguel?

A pergunta parece simples, mas a tradição não oferece resposta unívoca. A Carta de Judas chama Miguel de arcanjo. Daniel o apresenta como "um dos primeiros príncipes" e como grande príncipe defensor do povo.

Seria precipitado concluir que o título bíblico determina com certeza sua posição na classificação posterior dos nove coros. Autores cristãos propuseram soluções diferentes para sua dignidade hierárquica.

Também não é correto afirmar simplesmente que Santo Tomás o coloca em uma ordem muito superior e considera "arcanjo" apenas um título de missão. Na discussão tomista sobre a guarda angélica, Miguel é chamado arcanjo e príncipe; outras tradições teológicas o situaram de modos diversos.

A conclusão segura é mais sóbria: a posição exata de São Miguel dentro da sistematização dos nove coros não é matéria definida pela Igreja.

Serafins e querubins não são retratos

As visões de Isaías e Ezequiel não devem ser transformadas em anatomia celeste. Isaías descreve serafins de seis asas; Ezequiel emprega imagens de extraordinária complexidade para representar os seres viventes e querubins associados à glória divina.

A teologia católica, entretanto, afirma que os anjos são incorpóreos. As imagens comunicam realidades espirituais por meio de linguagem sensível.

Por isso, nem o bebê alado da arte renascentista nem a figura de Ezequiel deve ser tomada como fotografia de um espírito.

O que permanece

A tradição dos nove coros conserva grande valor. Reúne nomes bíblicos, recebeu elaboração de Pseudo-Dionísio, São Gregório e Santo Tomás e deixou marcas profundas na liturgia, na teologia e na arte cristã.

Seu valor, porém, aumenta quando seu estatuto é corretamente reconhecido. Não precisamos chamar dogma ao que a Igreja deixou à teologia para poder venerá-lo como tradição intelectual.

A existência dos anjos é verdade de fé. A ordem entre eles é coerente com a Sagrada Escritura e com a tradição teológica. A disposição dos nove coros é uma das grandes sistematizações dessa realidade. A precisão dessas distinções não diminui a beleza da hierarquia celeste; apenas impede que nosso mapa seja confundido com o próprio território.

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